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Notório Mário Mendonça recebe o Prêmio “Arquiteto Diógenes Rebouças”

Foto Professor Mario Boletim“Um povo que não tem memória não merece ser chamado como nação. Na memória daqueles que nos antecederam é aonde está a nossa visão crítica do que aconteceu e para onde vamos andar” – Mário Mendonça de Oliveira

Mário Mendonça será o homenageado da Premiação IAB-BA 2016 realizada no próximo dia 03 de fevereiro, às 19h, no grande vão do Teatro Castro Alves. Ele receberá o Prêmio “Arquiteto Diógenes Rebouças”, dedicado ao profissional que, pela sua atuação em projetos, construções, gestão pública e formação, tenha contribuído significativamente para o desenvolvimento da arquitetura e do urbanismo na Bahia.

Ensinar e transmitir uma vida de pesquisa e conhecimento é o lugar em que o Doutor, Arquiteto e Professor, Mario Mendonça, encontra sua maior satisfação. Aposentado há vinte anos, hoje aos 81 anos, ele ainda não pensa em parar de ensinar e se dedicar a projetos de pesquisa na Universidade Federal da Bahia. “Através do ensino eu me encontrei no mundo. Sou um professor muito dedicado. Sinto na recepção e no carinho que os alunos têm por mim, pelo que transmiti para eles, o sentido da minha vida. Ensino ciência, o que o arquiteto não domina muito bem, a ciência da construção e da restauração”, conta o professor.

Como educador, Mário procura passar para seus alunos a luz da história da arquitetura. “Me lembro muito de uma citação de um arquiteto medieval do século XIV, ao dar um parecer na catedral de Milão, a frase traduzida do latim significa: arte sem ciência não é nada. Em todos os momentos em que se fez grandes projetos na história, os profissionais foram comprometidos e envolvidos no processo da edificação. O arquiteto só se completa quando faz arquitetura. Não é projeto, nem desenho é o edifício pronto. Quando ele participa da elaboração à entrega do edifício. A ligação entre a prancheta e a obra, que hoje é o computador e a obra”, completa.

Hoje o professor Mário Mendonça se dedica principalmente a investigar a limitação de fundamentação cientifica e tecnológica nos criadores da arquitetura e tem formado algumas gerações que passam pelo Núcleo de Tecnologia da Preservação e da Restauração (NTPR), laboratório criado por ele, pioneiro na América do Sul, dedicado à pesquisa de tecnologias voltadas para a durabilidade dos materiais e dos edifícios e, à conservação e restauração de monumentos. “Muitas pessoas tem procurado o laboratório com essa percepção da importância de trabalhar arquitetura restaurando os monumentos. Realizamos, atualmente, um projeto inventário das fortificações do Estado da Bahia, pesquisamos argamassas antigas para aplicação na restauração, trabalhamos para consolidar construções históricas que estão desabando. Fazemos ensaio para todo o Brasil. Recentemente fomos agraciados pelo ICOMOS, Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, do qual faço parte no comitê brasileiro, com o título pioneiro da ciência e conservação do Brasil o que muito me honrou”, explica.

Um pouco da história

Nascido em Itiúba-Ba e criado em Campo Formoso-Ba, a valorização pelas raízes e história estão presentes na vida de Mário Mendonça desde o nascimento, quando sua mãe viajou para Itiúba apenas para dar à luz na cidade na qual a família possui muitos ancestrais. Poucos meses depois, retornaram para Campo Formoso. Ser professor também é quase uma tradição familiar. “Na minha família possui muitos professores e pessoas ligadas a universidade, minha irmã foi professora nos EUA, meu pai foi médico e professor, tenho um tio professor”, conta.

Antigo aluno do Colégio Central, na época em que era um centro famoso e de grande nível educacional, ao concluir o ensino médio, Mário Mendonça escolheu estudar no curso de Arquitetura, antes mesmo da sua implementação como Faculdade. “A Escola de Arquitetura não era muito importante na época. Era um curso da Escola de Belas Artes. Houve um momento de transição, quando deixou de ser um curso de Belas Artes e passou a ser a Faculdade de Arquitetura, por decreto assinada na época de Juscelino Kubitschek”, explica.

E assim começou o seu caminho na Universidade Federal da Bahia. Pouco após se formar, foi o primeiro coordenador de curso de Arquitetura, em 1969. Em seguida se tornou o primeiro diretor novo da escola de Arquitetura, aos 34 anos, entre os anos de 70 a 74. Também criou coordenação e colegiado de Arquitetura. Apesar de toda dedicação ao ensino e à pesquisa, Mário Mendonça sempre trabalhou a vivência com as obras e construção, para evitar torna-se puramente acadêmico. “Logo quando me formei comecei a projetar e construir, fiz muitas casas, de 30 a 40 projetos. Projetei casas para Silvo Farias, Raul Chaves, Edson Oliveira, Jorge Lepikson, Jorge Amado, Silvio Robato, entre outros”.

O professor Mário também já foi consultor do IPHAN e diretor da Fundação Pelourinho (atual IPAC), encarregada de zelar pelo patrimônio cultural do Estado da Bahia. Hoje ele ensina também três disciplinas de pós-graduação de Arquitetura na UFBA.

Entrevista Ping-Pong

Qual importância do patrimônio histórico e arquitetônico para as cidades?

Cuidar do nosso patrimônio histórico e arquitetônico é amar a arquitetura que foi deixada pelos nossos ancestrais como testemunho da nossa arte, do que foi a nossa cidade. Isso tem sido ultimamente a minha luta. Os profissionais não qualificados no trato do edifício antigo têm descaracterizado esses edifícios ou desmanchado para fazer outros em cima. Uma falta de ética profissional em relação aos colegas que já morreram, falta de gosto e sensibilidade cultural que não tem tamanho. Estão tirando tradições culturais arquitetônicas, que vão desfigurar a cidade.

Como avalia a realidade de Salvador em relação aos seus monumentos e conservação do patrimônio histórico e arquitetônico?

Salvador já foi melhor tratada em relação aos seus monumentos, passamos por uma crise e sensibilidade que me deixa assustado. No século XX havia o cuidado, Teodoro Sampaio, Wanderlei de Pinho, e outros que lutavam pela defesa da nossa memória construída, arquitetônica. A luta cresceu com o aparecimento do IPHAN em 1934, isso foi tomando corpo e hoje parece que as pessoas se esqueceram do que se passou, estão acontecendo fatos assustadores na cidade de Salvador.

Quais os trabalhos de restauração realizados que destacaria?

Amo tudo o que eu faço e faço por amor, na maioria das vezes faço sem intenção de receber nada em troca. Estamos trabalhando agora em uma fortaleza no Morro de São Paulo que estava destruída e a resgatamos do desparecimento. Utilizamos diversas técnicas inovadoras criadas por nosso laboratório. Também realizamos a restauração de azulejaria na Igreja do Rosário de Cachoeira, fizemos a consolidação de ruínas na Igreja do Monte Recôncavo, uma construção do século XVII XVIII, em São Francisco do Conde. Quando vemos prédio sem telhado, ruinas e conseguimos colocar tudo no lugar, sentimos uma satisfação interior muito grande.

Existe algum trabalho específico que ainda gostaria de realizar?

Fizemos um projeto completo com ex-bolsistas e ex-orientandos para restauração da igreja e convento de São Francisco, que está em péssimas condições, os azulejos estão se acabando. A maioria dos monumentos não pode ficar esperando, existe certa urgência para evitar maior degradação.

Como avalia o mercado de restauração hoje?

Já houve investimentos em projetos de valorização do patrimônio, hoje eu vejo isso com preocupação. Pior é deixar o monumento se acabar, pois existem maneiras de restaurar com simplicidade. A restauração de edifícios simples não tem grandes implicações financeiras. Fica mais caro quando é necessário fazer restauração de pinturas com douramentos, com arte incorporada à arquitetura. O mercado está muito difícil, principalmente para os novos profissionais e pessoas que não aceitam projetar arbitrariedade pela cidade. Quem tem critérios éticos não aceitaria projetos que viessem tirar a dignidade da capital Salvador. Toda pessoa culta é responsável pela preservação do seu patrimônio histórico e cultural.

O Sr. será o homenageado na Premiação IAB-BA 2016. Como recebe esse prêmio?

Recebo toda homenagem com muita humildade. Os colegas me escolheram pela dedicação ao que faço. Dedicado sempre fui. Tem pessoas que buscam homenagem. Nunca pedi nada a ninguém. Mas recebo com satisfação e humildade quando colegas mais novos acham que fiz alguma coisa nesta vida.



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