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NIVALDO DE ANDRADE REVÊ OBRA DE DIÓGENES REBOUÇAS

Por Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB)*

diogenes

Apesar de ser um dos nomes mais importantes da arquitetura moderna baiana, Diógenes Rebouças, autor de projetos como do Estádio Fonte Nova e das avenidas Lafaiete Coutinho e Centenário, é pouco conhecido na Bahia, principalmente pelas novas gerações. Para mudar essa situação, o IAB-BA e a Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (FAU-UFBA) promovem a exposições “Diógenes Rebouças – Cidade, Arquitetura e Patrimônio”, que está instalada no foyer do Teatro Castro Alves até o dia 8 de setembro. O IAB conversou com o secretário geral do IAB-BA, Nivaldo de Andrade Jr., curador da mostra, para falar sobre a importância do trabalho de Rebouças, cujo centenário foi comemorado em maio do ano passado.

Instituto de Arquitetos do Brasil: Por que muitos soteropolitanos não conhecem Diógenes Rebouças?

Nivaldo de Andrade: Embora tenha sido indiscutivelmente o arquiteto baiano mais influente da sua época e ouvido, no que se refere aos temas da arquitetura e do urbanismo, por governadores como Otávio Mangabeira e Juracy Magalhães, além de empresários como Noberto Odebrecht e intelectuais como Anísio Teixeira e Romulo Almeida, Diógenes era uma pessoa muito reservada. Ele nunca se preocupou em divulgar seu trabalho. Por exemplo, seus poucos projetos publicados em revistas especializadas são aqueles em coautoria com arquitetos como Paulo Antunes Ribeiro, ex-presidente do IAB, e Bina Fonyat. Certamente, foram esses parceiros que enviaram os trabalhos para publicação.

Há alguns anos, o principal jornal de Salvador publicou uma longa matéria sobre a arquitetura moderna e citava o arquiteto Diógenes “Moura” como autor de alguns projetos importantes. A maior parte dos projetos atribuídos a Diógenes naquelas matérias não eram de autoria dele.

IAB: Qual foi o objetivo de Rebouças quando propôs, com Mário Leal Ferreira, o primeiro plano de urbanismo moderno de Salvador?

NA: Mário Leal foi contratado para coordenar o plano de Salvador entre 1942 e 1943. Desde o primeiro momento, Rebouças – como coordenador do setor paisagístico do Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade de Salvador (EPUCS) – teve papel fundamental na espacialização, no território da cidade e na definição dos conceitos e das diretrizes propostos pela equipe coordenada por Mário Leal. A partir de 1947, com o súbito desaparecimento de Mário, Rebouças assumiu a coordenação geral do EPUCS, depois da Comissão do Plano. O objetivo era adequar a cidade às novas demandas, ligadas aos novos meios de transporte, ao crescimento populacional e à criação de novas infraestruturas. Salvador não era dotada de um teatro de porte desde o incêndio do Teatro São João, em 1923. O EPUCS definiu que o novo teatro deveria se localizar no Campo Grande, onde foi construído, entre as décadas de 1950 e 1960, o Teatro Castro Alves. O EPUCS propôs a localização da nova penitenciária. Uma penitenciária modelo, com oficinas onde os detentos pudessem trabalhar e receber por isso. Propôs um sistema de avenidas de vale que, apesar das muitas deturpações, foi sendo executado nas décadas seguintes e ainda hoje é estruturante do transporte urbano de Salvador. Propôs ainda as localizações do grande hotel da cidade (o Hotel da Bahia, atual Sheraton), de diversos hospitais, da rede de escolas concebida por Anísio Teixeira, que foi secretário de Educação entre 1947 e 1951, e muitos outros equipamentos.

IAB: O projeto das escolas-parque é tido como um dos mais importantes de Rebouças. Por quê?

NA: Porque ela corresponde à primeira e mais fiel materialização da pedagogia revolucionária de Anísio Teixeira. As experiências anteriores, como quando Anísio foi secretário de Educação do Rio de Janeiro, nos anos 1930, não foram plenas. As posteriores, como o Convênio Escolar de São Paulo ou a Escola-Parque de Brasília foram todas versões simplificadas das Escola-Parque de Salvador. Além disso, há uma integração excepcional, na Escola Parque, entre arquitetura, artes plásticas e urbanismo, e um forte caráter social no seu programa e na pedagogia que o fundamenta. Por fim, na Escola-Parque, especialmente nos pavilhões projetados após seu retorno de uma viagem de estudos aos Estados Unidos, em 1959, a arquitetura de Rebouças passa por uma mudança significativa, e ele começa a explorar plasticamente as coberturas e elementos estruturais em concreto armado de forma inédita. A Biblioteca da Escola Parque, por exemplo, é uma obra-prima da arquitetura brasileira.

IAB: Rebouças teve forte atuação na Bahia, mas quais são suas obras importantes fora do estado baiano?

NA: Um deles é o Centro Educacional de Pesquisa Aplicada (Cepa), em Maceió, que foi a maior escola do Brasil na época, e a Escola Normal de Aracaju, hoje abandonada e parcialmente demolida. Esses dois projetos foram elaborados nos anos 1950 a pedido de Anísio Teixeira, que era então diretor do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). Além desses grandes complexos educacionais, Diógenes projetou uma belíssima residência para seu irmão, que era médico, em Vitória do Espírito Santo. Essa casa, que ele considerava seu melhor projeto de arquitetura residencial, também foi descaracterizada.

IAB: Qual é o legado mais importante de Rebouças para a arquitetura brasileira?

NA: A meu ver, são dois: o primeiro é articular, de modo coerente e claro, os campos do urbanismo, da arquitetura e da preservação do patrimônio. O segundo legado, que talvez seja o mais importante, é ter demonstrado a capacidade que a boa arquitetura tem de transformar e qualificar não só o espaço urbano, mas também as vidas das pessoas de todos os extratos sociais.

Foto Diógenes Rebouças – acervo Centro Educacional Carneiro Ribeiro

*Disponível em:  http://www.iab.org.br/noticias/nivaldo-de-andrade-reve-obra-de-diogenes-reboucas

 



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