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EDIFÍCIO DOS ARQUITETOS: Uma Crítica como Obra de Arte

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Foto: Alan Quintela

O Edifício dos Arquitetos, construído em 1962 como sede do departamento Bahia do IAB, tem importância histórica para a instituição e para a classe dos arquitetos. Também terá para o Movimento Moderno baiano. Acreditamos, ainda, que há méritos artísticos nesta obra, que se pauta pela sutileza de seus detalhes, do arranjo de suas partes e do modo como se constrói sua totalidade, com alternativas ricas para o Centro Histórico do ponto de vista perceptivo, contribuindo para novas maneiras de ver e percorrer o lugar.

O edifício se constitui de três fenômenos distintos. O primeiro é o bloco à testada da Ladeira da Praça, galeria comercial. O outro é o vazio que separa o bloco inferior do superior, terraço sobre o panorama do centro da cidade, que se compreende não como cobertura, mas como um chão. O último é o bloco que abriga o IAB propriamente dito, que paira. O corte entre o bloco horizontal e o edifício suspenso é abrupto o suficiente para impedir a percepção destes como um único prédio.

Apesar dos três pavimentos, a galeria comercial é marcada pela extensão horizontal, enfatizada por seus vários elementos corridos. O fato mais marcante são as poderosas empenas. Há um trato delicado de uma jardineira na pedra bruta da parede lateral.

O terraço acima é árido, com poucos materiais. O guarda-corpo é uma extensão do piso, parte sua repuxada e dobrada, na forma de um banco. Baixo, portanto, tornará o terraço ainda mais aberto ao entorno.

O edifício, acima, é singular. Os extremos são marcados com azulejo e vigas aparentes em três faces, de onde se subentende uma quarta, formando cubos hipotéticos. Os cubos estão nos extremos, e as janelas são ausências, espaços entre os volumes soltos. O mesmo vale para a varanda, com uma laje delgada avançando. Tendendo a desfazer-se em blocos singelos, é amarrado visualmente por uma cinta de concreto, e o beiral avançado da cobertura os abraça, como asas que planam. Da sua entrada austera, no terraço, o piso se desprende em uma fita, e se espirala em uma escada. Também se retorce a cordoalha que forma o guarda-corpo. Mais simples dos elementos, é dos gestos mais potentes, na síntese surpreendente entre construção e ornato, o elemento comumente relegado ao bastidor do papel de estrutura, transmutado em corrimão de elegante feitio.

O eixo visual de quem acede ao interior por essa única entrada, próxima a uma das extremidades, é o longitudinal ao comprimento. O salão é um espaço que se dilata. O espaço da circulação vertical é constrangido pelo volume dos sanitários e pelo rebaixo do forro de tijolo aparente. O salão então se abre, ainda mais dilatado porque se inunda de luz. A varanda, elemento fundamental, introduz um novo eixo transversal.

Por meio da varanda o salão se abre inteiro à paisagem. É um espaço entre dois volumes autônomos, convenientemente cerrado por vidro e não é um recorte na alvenaria, uma tela onde acaso se emoldura uma visada, até porque ampla demais em sala pouco profunda. É preciso passear no que se vê. Exterior e interior se fundem. A área vista é uma baixada; um corpo de telhados e sobrados, onde despontam as torres da Igreja de São Francisco e a solidez de seu convento. Se o Centro Histórico invade a sala, o salão projeta-se sobre o espaço, através do balanço da varanda, muito acima da rua, e ainda assim no mesmo nível visual do mar de telhados defronte. Se a varanda propicia uma condição de mirante privilegiado ao salão, é também um estar próprio. É o responsável por unir de maneira singular o dentro e o fora – cuja dicotomia assim se dilui, já que a varanda ganha presença própria, exprimindo sua individualidade a todo momento. Seu material é diferente; do assoalho em madeira vai-se ao piso de concreto aparente. Está em outro nível, em patamar superior ao piso da sala. Não encosta na pérgola que lhe está abaixo. Tampouco toca o piso da sala – há uma junta de sombra que a distingue – como também não encosta o degrau que lhe acede, em um acesso que não é franco, mas lateral, realçando seu caráter próprio. O painel de vidro que lhe perpassa tem pouca presença. E, sobretudo, há uma varanda para dentro do salão. É um lugar de onde se contempla o salão, em pé, em um nível superior ao piso do salão. A laje dobrada, antes limite, aqui é bancada longilínea, dando-lhe a condição de um estar que assiste.

E, importante, envelhece o prédio com dignidade. As empenas são de pedras ciclópicas, com vegetação em seus interstícios. Mas os canteiros de concreto, engastados laboriosamente, não prefiguravam essa situação? As empenas são ancestrais, desfiando enigmas por sobre as vias que ladeiam o prédio. As fenestrações, antes de tirar-lhe a força, a aprofundam. O prédio arranca e alça-se sobre ruínas re-criadas, e o tempo, junto com o destrato, em décadas igualou em idade aparente a pedra pré-existente e o concreto, pedra fabricada.

Nada mal para a sede da mais antiga entidade de classe dos arquitetos na Bahia.

Daniel Paz é mestre em Arquitetura e Urbanismo, prof. da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e suplente do Conselho Superior do IAB-BA.

Fotos da Sede do IAB-BA:

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