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Discurso de posse do Arq. Paulo Ormindo de Azevedo na Presidência do IAB-Ba, biênio 2006-2007
Sr. Presidente do IAB-Ba, Arq. Daniel Colina, senhores membros da mesa, caros colegas, senhoras e senhores:
Uma nova diretoria acaba de assumir a direção deste Instituto. Todo ciclo de passagem deflagra expectativas de mudança e inovação. Além das nossas próprias propostas, há um mundo de sugestões na cabeça de cada um dos associados aqui presente e não queremos perde-las ou limitá-las. Todas elas devem integrar o nosso programa. Se quisermos realizar alguma coisa, temos que ser ambiciosos, mas não podemos nos perder em devaneios. Por isso, durante algumas semanas nos reunimos para ordenar idéias e identificar, mais que pontos, linhas de ações programáticas.
Há questões instrumentais, que tocam diretamente o cotidiano e os direitos de nossos associados, nem sempre respeitados; há questões que dizem respeito ao aprofundamento do compromisso deste Instituto com as lutas desta comunidade sofrida; e há questões relativas ao relacionamento cooperativo, mas independente, com os poderes públicos. Sabemos das dificuldades e limitações de nossa missão, mas também que se pode fazer muito com imaginação e trabalho e a certeza de que não estamos sós.
Temos a responsabilidade de dar continuidade à obra dos que sonharam esta cidade, como o mestre Luis Dias, que a implantou alcantilada na Montanha dominando o oceano, o golfo e seu Recôncavo, como o jesuíta Francisco Dias e Frei Macário de S. João, que transplantaram a tradição arquitetônica ibérica e italiana para este solo tropical, como os alarifes Manuel Quaresma, Antonio Favela e Gabriel Ribeiro, este autor da única fachada-altar do país, como os engenheiros militares Antonio Caldas, Manuel Cardoso de Saldanha e Cosme Damião Fidié, introdutor do Neoclássico no Brasil, como os ecléticos Nivaldo Allione e Rossi Baptista, como o sanitarista Mario Leal Ferreira e o urbanista Diógenes Rebouças, inventores das avenidas de vale, como os forâneos Alexander Budeus, Paulo Antunes Ribeiro, Bina Fonyat e Lina Bo Bardi, que deram ao asséptico modernismo o tempero baiano, ou ainda um sem número de riscadores e construtores anônimos, com ou sem título, pouco importa, para só falar dos mortos e não ferir a vaidade dos vivos.
Formados nas bibliotecas dos mosteiros, nas aulas militares e nos canteiros de obras, os arquitetos ganharam seu primeiro curso especializado na Bahia com a criação da Academia de Belas Artes, em 1877. Mas é com a incorporação da Escola de Belas Artes à Universidade Federal da Bahia, em 1949, que seu ensino passa a ter maior densidade e status universitário. Cinco anos após, em 1954, por iniciativa do Arq. Bina Fonyat, membro da diretoria nacional, se forma este Departamento do Instituto de Arquitetos do Brasil, sendo eleitos para a sua primeira diretoria Diógenes Rebouças, Fernando Machado Leal, João Augusto Calmon du Pin e Almeida, Américo Simas Filho e Walter Veloso Gordilho.
Conta, portanto, nosso IAB-Ba com meio século de vida.
Este trabalho pioneiro seria consolidado, entre 1962 e 1966, quando éramos apenas 150, por Affonso Baqueiro Rios, Armando Pontes, Ary Penna Costa, Ary Magalhães, Benito Sarno, Carlos Mauricio Torres, Fernando Caetano Pontes, James José Faias, José Maria Conde Drummond e Sergio Pinheiro Reis, responsáveis pela campanha, projeto e construção desta sede, significativamente localizada no Centro Histórico de Salvador. Com este trabalho Benito Sarno e Affonso Baqueiro se credenciaram para assumir os mais altos postos do IAB Nacional e do Crea-Ba.
Já não somos uma profissão em busca de reconhecimento. Cumprimos um papel consagrado no processo de urbanização da Bahia, possuímos um saber especifico reconhecido, temos um código deontológico e uma associação profissional com larga tradição de serviços e lutas, que tenho, a partir de agora, a honra e o ônus de presidir. Precisamos, porém, universalizar nossa profissão, fazendo-a chegar a toda a população, especialmente aos mais carentes. A melhoria da acessibilidade, do saneamento básico e da habitação não é um luxo, é um direito da cidadania e monitores e estagiários de arquitetura-urbanismo deveriam percorrer os bairros mais pobres orientando seus moradores sobre questões ambientais e habitacionais, como fazem os agentes de saúde. Nossos escritórios profissionais estão qualificados a colaborarem com prefeituras e agencias financiadoras no micro-planejamento urbano e na projetação de equipamentos e conjuntos habitacionais, selecionados através de processos ágeis e transparentes, que privilegiem mais a qualidade, que a mesquinhez dos pacotes de serviços.
Sabemos que humanizar a cidade e diminuir as desigualdades urbanas não é uma preocupação apenas nossa. Não podemos fazer nada senão dentro de uma rede que inclua todos os atores que atuam na cena urbana, desde as associações comunitárias e ONGs, passando pelas representações de classe, até chegar ao poder público e aos agentes privados. Poderemos ser os interpretes do “urbanês” para o grande público, como o fizemos ao decodificar as armadilhas do PDDU-2004. O fortalecimento dessa malha é um dos nossos objetivos. Queremos discutir com a comunidade os problemas urbanos com uma visão cidadã e técnica e não demagógica ou mercadológica. Para isso é fundamental a aproximação do IAB-Ba com as outras associações de classe e as universidades, não apenas ao nível dos técnicos e professores, senão também dos alunos, que irão dar continuidade às nossas lutas.
O maior ou menor papel que possa desempenhar o IAB-Ba nesse processo é função do fortalecimento profissional. Precisamos ampliar a representatividade do órgão e a qualificação de nossos profissionais. Temos que reunir todos os grupos que compõem a categoria, na capital e no interior, e discutir seus problemas específicos: urbanistas, assessores públicos, projetistas, paisagistas, designers de interior e construtores. Precisamos fazer valer o direito autoral e prevalecer os critérios técnicos sobre o arbítrio político ou especulativo. É vergonhoso falar de salário mínimo profissional e mais ainda constatar que nem isto é cumprido.
Queremos estabelecer uma relação madura, cooperativa, mas independente com os órgãos públicos, em especial com a Caixa Econômica Federal, com o IPHAN, com a Conder e com as prefeituras. Estamos à disposição para discutir e emitir pareceres técnicos, elaborar termos de referencia, realizar estudos setoriais e organizar concursos de arquitetura. As edificações públicas devem voltar a ser a expressão mais alta e diversificada da nossa cultura arquitetônica, como foram no passado e continuam sendo em todo o mundo. Mas queremos também abertura para o dialogo, programas urbanísticos e habitacionais objetivos, políticas patrimoniais conseqüentes, critérios claros e isonomia na adjudicação de projetos e obras e agilidade na aprovação dos mesmos.
A diretoria que agora assume tem um compromisso irremovível com a renovação e a mudança, mas é a conseqüência do trabalho de reconstrução do IAB-Ba desenvolvido pelos que nos antecederam, em especial Daniel Colina e Paulo Rocha. Não podemos esquecer também a dedicação do pequeno quadro de funcionários desse Instituto, que o manteve funcionando mesmo nos períodos mais difíceis. O fortalecimento da profissão passa também pela valorização de nosso quadro executivo. Estamos todos no mesmo barco.
Quero agradecer a confiança dos que nos escolheram para esta difícil, mas estimulante, missão e garantir que ela não será traída. Precisamos da participação de todos para dar ã nossa profissão a grandeza que ela merece, como fizeram os nossos maiores no passado. Agradeço também a presença dos que nos prestigiaram neste ato. Suas preocupações urbanas são o nosso tormento, mas pode ser também um sonho realizável, redesenhar Salvador mais humana, igual, ordenada e bela. Não percamos tempo.
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