Notícias



ARTIGO/EDITORIAL: O DESABAMENTO DO CENTRO DE CONVENÇÕES E A FONTE NOVA

Marcus Alban* – Publicado em: 09/10/2016 03:25:00 no jornal Correio*

No dia 23 de setembro, a reforma visando a reabertura do Centro de Convenções da Bahia – o CCB – veio abaixo, derrubando boa parte do primeiro e segundo pavimentos. Dadas as dimensões do evento, e o fato de quase não haver vítimas, pode-se dizer que foi um milagre. Tivesse o mesmo ocorrido em plena abertura do grande Congresso de Odontologia, com mais de seis mil pessoas, conforme era previsto, e teríamos uma imensa tragédia. Mas não se busca aqui ficar conjecturando sobre o que poderia ter ocorrido. O objetivo é discutir o que fazer após o desabamento e isso, naturalmente, sob a perspectiva da economia turística.

O turismo é um dos principais geradores de emprego e renda de Salvador e, embora se caracterizando pelos segmentos de cultura e sol e praia, nem por isso o segmento de convenções é de menor importância. Ao contrário, como já percebia Rômulo Almeida, em seu pioneiro Plano de Turismo do Recôncavo, o desenvolvimento desse segmento é fundamental para dinamizar os períodos de baixa estação, e viabilizar, dessa forma, uma maior e melhor infraestrutura para os picos de alta estação.

O segmento de convenções, por outro lado, é também um poderoso instrumento de marketing, na medida em que atrai pessoas que, bem recepcionadas, voltam posteriormente, muitas vezes com as respectivas famílias, para viver mais intensamente o destino.

Nesse sentido, pode-se dizer que o problema turístico gerado pelo CCB não se inicia com o desabamento. Inicia-se, na verdade, muito antes, com o abandono quase que por completo de sua manutenção, levando a que o mesmo fosse interditado em princípios de 2015 e seguisse sem nenhuma solução até a recente e fatídica reforma. As consequências socioeconômicas desse processo foram imensas e explicam, como não poderia deixar de ser, boa parte da atual crise do setor, marcada pelo cancelamento de vários voos regulares, baixas recordes nas taxas de ocupação e fechamento de inúmeros hotéis, bares e restaurantes, com o consequente aumento do desemprego na cidade.

Claro que não se pode deixar de reconhecer que o país vive hoje uma grave crise, que transborda também para o turismo. Contudo, quando se observa que tal processo ocorreu paralelamente, não só a uma visível melhora da cidade, como a desempenhos completamente distintos de Fortaleza e Recife, não há como não admitir que grande parte da culpa da crise turística resulta mesmo da falência do CCB.

Face a esse contexto, é assustador perceber que a única resposta do governo ao problema é simplesmente dizer que vai demolir o atual Centro de Convenções da Bahia e construir outro. Não se diz o porquê dessa decisão e muito menos como e nem em quanto tempo irá construir um outro. Estimativas do mercado dizem que, em havendo recursos, a demolição, que não pode ser por simples implosão, e a construção de um novo centro, de porte ao menos similar ao atual, deverá se dar em cerca de quatro anos. Mas quatro anos é muito tempo para seguirmos em crise, e de outro lado, no momento, é pouco provável que existam recursos públicos para tanto. Assim, cabe a pergunta, por que demolir?

Pelo que foi divulgado, até o momento pelo menos, não existe qualquer laudo técnico que indique que o desabamento da reforma exija a completa demolição do equipamento. Assim, tudo leva a crer que trata-se de uma resposta não muito técnica, proferida em razão do calor da hora. Nesse contexto, vale a pena fazermos um paralelismo com o caso da Fonte Nova que, como se sabe, foi considerada como passível de demolição após o desabamento de parte da arquibancada, que provocou a morte de sete torcedores em um jogo do Bahia, em novembro de 2007. O caso da Fonte Nova é interessante também porque, no concurso que se seguiu, uma das propostas apresentadas advogava a manutenção dos grandes pilares, que estavam perfeitos, com a demolição e reconstrução apenas das arquibancadas, o que resultava em um novo estádio bem mais barato, e que preservava o centro de natação anexo. Bem, essa proposta, dada a premência das exigências da Fifa, não prosperou, e o resultado é a Nova Arena com as limitações que todos conhecemos.

Como se observa, demolir velhos equipamentos para construir equipamentos completamente novos, especialmente em processos decididos no calor da hora, nem sempre levam a boas soluções. Assim, não por acaso, o setor privado vem desenvolvendo toda uma engenharia, hoje chamada de retrofit, que permite a recuperação e reconfiguração modernizada, a valores bem competitivos, de inúmeros equipamentos/imóveis sejam eles quase ruínas tombadas, como é o caso do Palace Hotel, prestes a ser reinaugurado, ou de grandes edifícios pós sinistros, como foi o caso do Joelma em São Paulo.

Deve-se ter claro que o que se está propondo não é a reconstrução do CCB em seu projeto original, até porque este era repleto de problemas operacionais, mas sim um retrofit modernizador do mesmo, que permita o seu retorno a operação com brevidade e muito maior qualidade.

Naturalmente, tal proposta só pode ser considerada se o desabamento não representou maiores danos para as fundações e toda a estrutura que amarra os pisos superiores, o que parece ter sido o caso. De outro lado, deve-se ter claro que tal proposta, dado o grande potencial turístico de Salvador, não elimina a necessidade de, com calma, se planejar um outro Centro de Convenções, de muito maior porte, conforme as atuais exigências do segmento, a se localizar, muito provavelmente, no Centro Antigo da Cidade.

*Engenheiro, doutor em Economia pela USP, pós-doutorado em Turismo pela Univesidad de Málaga e professor titular da Eaufba



Sede

Edifício dos Arquitetos
Ladeira da Praça nº 9, Centro

(71) 3335-1195
iab-ba@iab-ba.org.br

Escritório Executivo

Ed. Raphael Gordilho, Av. Lucaia 317, sala 203,
Rio Vermelho, CEP 41940-660 Salvador, BA


Institutos de Arquitetos do Brasil - Departamento da Bahia. © 2020. Todos os direitos reservados.