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Artigo: O adeus a Antônio Rebouças

*Nivaldo Andrade – Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento da Bahia

No último dia 28, faleceu aos 90 anos o engenheiro, artista plástico, designer e arquiteto autodidata Antônio Rebouças. No obituário dos jornais locais, apenas uma singela nota que informa sobre o sepultamento, no Cemitério do Campo Santo, de Antônio de Almeida Rebouças, 90 anos, natural de Itabuna, sem dar conta da sua atuação profissional e, principalmente, da sua importância para a arte e a cultura baianas de meados do século XX.

Irmão caçula do mais influente e produtivo arquiteto baiano, Diógenes Rebouças, Antônio estudou engenharia civil na Universidade da Bahia, graduando-se em 1948. No mesmo ano, abriu com o colega de turma Francisco Santana – que viria a ser o mais importante engenheiro calculista baiano de sua geração – e com o jovem desenhista de origem ucraniana Lev Smarcevscki o escritórioEngenharia, Arquitetura e Urbanismo Ltda.. Das pranchetas de Lev e Antônio saíram, entre o final dos 1940 e início dos 1950, os projetos das primeiras casas modernas construídas em Salvador.

Essas casas revolucionaram a paisagem da velha cidade da Bahia ao incorporar referências à arquitetura de Oscar Niemeyer e de outros arquitetos modernos cariocas, como os pilotis (colunas) em forma de “V”, as fachadas inclinadas e os telhados-borboleta, com calha central. Algumas dessas casas foram publicadas à época em revistas especializadas de circulação nacional e participaram da I Exposição Internacional de Arquitetura, promovida em 1951 como parte da I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

A casa mais marcante desenhada pela dupla Antônio e Lev foi, provavelmente, a de Raul Faria, construída a partir de 1949 na Avenida Oceânica, onde atualmente se encontra o Barra Center. Com um imenso piloti em “V” que segurava a gigantesca laje da cobertura, transformou-se imediatamente em um marco da orla da Barra.

No mesmo período que projetou essas casas, Antônio Rebouças trabalhou no Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador, o mítico EPUCS, então coordenado por seu irmão Diógenes. A partir dos anos 1950, porém, ele se afastou gradativamente da arquitetura e do urbanismo e passa a se dedicar ao design de móveis e às artes plásticas. Como designer, produziu, com Lev e Genaro de Carvalho, os primeiros móveis modernos da Bahia. Como artista plástico, foi responsável, junto a Mário Cravo, Carlos Bastos, Genaro, Carybé e outros, pela consolidação da arte moderna na Bahia.

Há dois anos, quando estava pesquisando sua obra arquitetônica para minha tese de doutorado, tive oportunidade de entrevistá-lo duas vezes. Conhecido pelo seu vigor e pela personalidade forte, ainda se recordava com detalhes de fatos ocorridos 50 ou 60 anos antes, como a crítica impiedosa que Lina Bo Bardi, então defensora do ângulo reto e detratora das curvas niemeyerianas, publicara na revista Habitat em 1952 sobre o seu projeto para a residência de Waldemar Gantois, em Piatã. Lembrou também da exposição de suas esculturas e pinturas que a mesma Lina organizara, em julho de 1963, no recém-criado Museu de Arte Moderna da Bahia, ainda em sua sede provisória, no foyer do Teatro Castro Alves.

A Bahia perde um grande e multifacetado artista, que transitou do design de móveis ao planejamento urbano, da arquitetura às artes plásticas. Sua morte foi precedida da demolição de todas as suas casas. A única sobrevivente, na Barra, encontra-se totalmente descaracterizada e perdeu as obras de arte de Mário Cravo e Carybé que ficavam em sua área externa. A maior obra remanescente de Antônio Rebouças é o Edifício Mariglória, ícone da modernidade baiana construído na segunda metade dos anos 1950 em frente ao Hospital das Clínicas, no Canela.

Quem sabe o reconhecimento que Antônio Rebouças não teve em vida possa vir após seu falecimento. O MAM-BA, por exemplo, poderia aproveitar a efeméride dos cinquenta anos da exposição organizada por Lina Bardi para organizar uma ampla mostra da diversificada produção de Rebouças nas artes plásticas, arquitetura e design de móveis, resgatando, para o grande público, a sua contribuição para a arte moderna baiana. Fica a dica.

Artigo originalmente publicado no jornal “A Tarde”, 1º de maio de 2013, página 2.



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