Boletim Notícias



A dificuldade de criticar a Copa

Walter Gordilho, professor de muitas gerações de arquitetos, costumava dizer que a maior agonia era um médico morrer de doença da sua especialidade. Como conhecia a fundo os sintomas, ao sentir uma dor, o médico já sentia as seguintes por antecipação. Experiência semelhante temos tido nós, arquitetos e urbanistas, com a Copa do Mundo.

 

De outubro de 2007 para cá, o entusiasmo pela escolha do Brasil como sede da Copa foi se tornando uma preocupação, à medida que os projetos demoravam a ser realizados. Infelizmente, o que temíamos aconteceu: não nos preparamos para a Copa. A tendência dos nossos governos de desprezar o planejamento trouxe-nos dificuldades até mesmo para concluir os estádios em tempo.

 

Dentre nós, profissionais do projeto e da construção, não foram poucos os que perceberam que o andamento das obras era inviável.

 

Não só os estádios não estão totalmente prontos, como não estão prontos os aeroportos. Acessibilidade e transporte urbano, os mais importantes legados prometidos à população, não saíram nem do papel. Outros foram totalmente esquecidos. Sem um legado de infraestrutura e estádios tendentes a elefantes brancos, restou-nos o fluxo de turismo.

 

Como profissionais que construímos o ambiente físico deste país, é nosso dever registrar as nossas críticas. É preciso que se diga claramente que a situação do Brasil, hoje, é muito longe do que esperávamos.

 

O Brasil jogou uma bela oportunidade pela janela. Ao sediar a Copa, atraiu para si os holofotes. Como não fizemos o dever de casa, ainda que o povo venha a estar sorridente, o país não sairá bem na foto.

 

Com a chegada das visitas, temos a difícil tarefa de continuar atentos sem transferir a nossa indignação à Seleção e muito menos aos turistas. Povo alegre e hospitaleiro, cabe-nos minimizar o vexame, receber os visitantes de braços abertos e torcer para que a Seleção ganhe. Impossível talvez seja dizer ao povo que antes era cedo e agora é tarde demais para protestar.

 

Raul Nobre Martins

Arquiteto e vice-presidente do Conselho de

Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU/BA)



Sede

Edifício dos Arquitetos
Ladeira da Praça nº 9, Centro

(71) 3335-1195
iab-ba@iab-ba.org.br

Escritório Executivo

Ed. Raphael Gordilho, Av. Lucaia 317, sala 203,
Rio Vermelho, CEP 41940-660 Salvador, BA


Institutos de Arquitetos do Brasil - Departamento da Bahia. © 2019. Todos os direitos reservados.